permaneceu no beijo por nada entender
Escrito por Felipe Lesage às 22h59
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sobre o que parece ser paz
"o presente pode ser tão íntimo e conforto que a nostalgia"
Escrito por Felipe Lesage às 22h57
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não que seja raridade. não é raro que pessoas me sejam espelho, pelo menos não raro do impossível, que me completem e troquem de uma companhia que nem é mesmo a palavra que a descreve, conhece?
acontece que hoje não. hoje foi um conto de cortazar, sol esturricante, um morango com açúcar úmido, um morango que nem se lançava como idéia, e muito de uma sensação próxima a tristeza tostando junto comigo. chorava ao ler em voz sussurrada “aí, mas onde, como”
“aí, mas onde? como?”
tudo que morre em palavras ou seja que é livre contém essa sensação de presença etérea, de estar aí, mas onde, como?
e parei de chorar, conforme me sabia chorando como palavra
e cortazar me contou um segredo, enquanto eu tentava contar-me outro
que, pasmo, aquilo continha mais morte e liberdade que a noite em claro de sexo com uma estranha da qual me encontrava recém emerso
porque com essa estranha o sexo havia mantido sua palavra
o sol queima, e eu entro em casa, ligando o chuveiro gelado, e com a idéia de escrever coisas que não tenham mais nem começo, nem meio, nem fim, nem muito menos clímax, nem muito menos tensão ou relaxamento. um conto atonal, uma canção sem parágrafos
Escrito por Felipe Lesage às 23h20
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idéia pra próxima canção
como se a crença que se consome em tempo experienciado retilíneo flexionasse o circulo
leveza ignorada e espiral
Escrito por Felipe Lesage às 20h24
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acho que toda felicidade que posso conceber existe, de alguma forma, em mim. algo dessa existência, que cansa de palavras e sorrisos, e mora cada vez mais na clandestinidade dos viveres, nas frestas esparsas onde passa uma luz empoeirada, quebrando convenções vivenciais, obedece a uma simples regra de se reinventar, de não ser amor, não ser dinheiro, planos ou profissão. felicidade é uma palavra que faz questao de se desintegrar em mim, pra que possa reencontra-la nos mais absurdos, e lembrar que o estalar do teto da velha casa guarda em um som milhares de dimensões, que tudo que foi ser feliz ainda foi. o plano era ser famoso, era ser disney, era ser tudo que cabia debaixo do edredom colorido, com medo do teto rangente noturno. e agora, que os sonhos nao cabem mais? agora é melhor, é mais ainda. agora é ser o sonhar, e olhar o ser como janela do sonho, deixar-se rasgar algumas abas de madeira da ventana pra que bata luz, refletindo um raio na velhice do quarto escuro e que, a despeito do sol, do calor de um mundo que nao existiu pra mais ninguem mesmo, cresceu paralelo, e de um jeito único. é hora de dar as caras a tanta gente que na verdade também receia rasgar as retinas à luz solar.
dedicado ao meu amigo daniel chueke
Escrito por Felipe Lesage às 00h51
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(...)pois bem, desliguei o telefone sem dizer, mas devia tê-lo feito assim que percebi: que não há vazio que exista por si. Vazio, esse sentir a que estamos fadados uns e outros, é por ser sentido, negar completude qualquer que esteja existindo por aí. Acho que tocar esse tal é uma experiência de se saber existência, perceber sua vida além da frágil sensação de completude que as tarefas materiais acabam por nos endereçar. Compra-se flores, compra-se vasos, quebram-se os pratos, fala-se ao telefone, mas isso tudo é matéria. Isso tudo é lindo e vazio enquanto sem suas próprias cores.
Ou é o vazio, então, simples máscara, disfarce do medo. É sim. Isso de se viver e aprender, respirar e aprender, gozar, apanhar, tanger a morte com os dedos e aprender, a isso chamei tempo. E o homem é tempo que não sofre duas vezes mesma dor, ou mesmo homem; cala-se a boca, encolhem-se os ombros, o olhar migra. Do agora ao infinito. E a boca, nascida presente, de cores e fôlegos por gritar, faz-se eco do medo: torna-se vácuo.
E afinal não há homem que conceba o vácuo, o infinito. No entanto sei que o que fica quando alguém morre é um pouco dessas duas palavras: um pouco de fim e um pouco de espera.
Mas o vazio, esse disfarce do medo, fôlego insípido entregue aos pulmões, o vazio é cor que só se pinta em quem já se permitiu mergulhar, tocar de pele inteira, não só ponta do olhar, seus tempos de total presença.
Escrito por Felipe Lesage às 01h34
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nisso de chegar cavando minha pele e mordendo meus ombros e lembrando meus filmes
e mais meus
essa algo faca algo peito algo estampa de angustiante prazer
sentou-se ao meu lado contou vidas nos dedos levou-se embora com a sua
levou com delicados mas bobos dedos:
em uma mão meu coracao na outra minha coca
aguados e pela metade
Escrito por Felipe Lesage às 11h38
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I
Preso a sua bicicleta por não mais confiar em seus pés, membros já tão enraizados, fixos ao solo e à consciência quando caminham, aproveita seu tempo da não escolhida solidão para seguir mais adiante. Passa reto pela porta de casa, guiando-se por vontade e medo; o receio que sempre sentiu ao imaginar o fim de sua rua e a sempre noturna estrada que a ela se ligava fazia alimentar um sóbrio mover de pedais.
Despe-se aos poucos da atmosfera de seu bairro, povoado por gatos nômades, sobrados e árvores bem nascidos, e caminha para a interrogativa escuridão do início da estrada, já sentindo o frio, misto de inverno, noite e planície, penetrar nas mãos ao guidom.
O que encontra em poucos minutos, por belo e misterioso que fosse, chama não de “outro planeta, universo paralelo”, mas de “cena”. Sente-se, talvez pela primeira vez, dentro da onírica gravitação do cinema, a intangível beleza que vem do conhecer partes de um todo, e projetar um todo a seu bel prazer. Disso se encarregava a luz da lua, solista da noite, refletida no asfalto liso e úmido, azulando o enegrecido, vasto descampado com que acabava de se deparar, boquiaberto.
O convite a engolir o túnel noturno que se apresentava era assustador, “quando terminar?” pensava, frustrado. Por diversas vezes ainda conheceria essa sensação: o medo de mergulhar, por saber que não há fim que se apresente; vinha então a imagem de seus poemas em papel griz, partituras, sequer rasgados, envoltos na aura da festa que acabara de deixar, sequer esbaforido ou desesperado, dar nome a essa sensação, tão sua e inominável, chamada à memória apenas em passado, nunca em palavra, de pura que era.
Mas agora a metáfora era clara demais, e seus olhos, lacrimosos face ao vento já rural, tragavam o cenário; não há placa, não há poste, ouve-se um murmúrio de aviões ao longe rasgarem as peles noturnas, insetos em eterno acasalamento, e o convite: fluxo, noite, campos, estampas, lua.
Escrito por Felipe Lesage às 08h48
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Ciclos
- Porque eu amo você e não esse alguém do nosso lado esse estranho recém esbarrado à porta do trem te amo e não outro até que já distante ou estagnado num dia desses em que sinto o sol entristecer minha pele fria e inchada e me espanto com como era bonita a placa que dizia qualquer coisa sobre o amor ou vidência ou a mancha de sorvete no chão me veja tão longe de ti quanto um esbarrado desses ao trêm e sente novamente no chão duma praça por ainda detestar sesu bancos e chore não pela distância mas pela conta a pagar a existência dos dias mês ano em minha cabeça e novamente suspiro como uma virgem abrindo-me aos mundos de estranhos sozinhos
e novamente me apaixono
era um estranho esbarrado
Escrito por Felipe Lesage às 21h11
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o maestro é dançarino
contido
quem prefere?
luvas de borracha a rugas de banheira
uma vez, quando criança,
descia
a ladeira
tao rápido
na minha bicicleta
que fiquei com medo
í
a de ro
c p p
ó t
s i
o!
Escrito por Felipe Lesage às 22h56
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volta para colher algumas migalhas que deixou no caminho
traçado, pois, um tapete de asfalto sobre a linha da vida
retorna a cavalo
agaixa-se lentamente
a guardar as migalhas
sementes um dia lançadas
sobre a estrada de terra
Escrito por Felipe Lesage às 22h17
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invernal
temo sempre o impulso do fazer pois a vontade pulsante distancia-me como um terremoto como excesso
vontade vitrificar um simples completamente denso, roxo de tao azul de tão vermelho fim de dia de inverno
como explicar pra mim mesmo o azul? o vermelho que desde a infancia me inquieta e é so cor mas quase resposta
querer um algo outra existência lateral entender um pôr-do-sol sem palavras sem canção que não o tempo
tempo...canção proibida!
como o poente aos cegos aos bobos
fêmea eterna e toda que várias sejam inverno canção cor
que tempo é uma canção de dia uma paleta de cor à noite
ensina-me a desvendar o inverno que eu lhe descubro quem eu sou
afundemo-nos, fêmea em nós mesmos em busca de tudo que há de pior e mais bruto, e mais belo e forte
voluta em torno de mim descasca rasga com as unhas, pouco a pouco o que desaprendi a ser sentir
encontra e entende lilás lágrima orgasmo movimento
enfim tudo que é, em mim
tempo
canção proibida
Escrito por Felipe Lesage às 17h35
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fragmentos de
fragmentos de
noturnas
I Nunca havia reparado Você possui mãos, infantis, delicadas, maternais agarrando a garrafa de vinho na foto Tampouco notara que ainda canto as mesmas únicas músicas que saíam desses anos de ser em ti exatamente as mesmas. Não penso em novas canções, não há nova canção As mesmas poucas roupas que sobraram, ainda tem esse gosto de noite, que era nosso espaço de ser. Não cabíamos aos dias; são ambos mesma matéria, mas à luz vem de forma trancada, do jeito que funciona, que dói a garganta e prende as lágrimas. Não havia reparado que nosso amor era noite
II - O que acontece? É aquele vazio de novo? - É vontade. - De que? - De ser, existir. Conhecer aquilo que é aquilo que chamam lar, aquilo que chamam SOU, FAÇO, TENHO são todos realmente tão vitoriosos assim? Conheço brilhos no olhar, e vejo que o mundo inteiro, não só eu, está sedento por paixão vítrea, algo que more no futuro um amor que more afastado no tempo, pra que possa continuar movendo carros, escritórios, festas e tanques aglomerados de massa tão desprovidos de gente que gente é ser por inteiro é saber gostar e porque odiar
III que o ódio também é razão além de defesa é um jeito de amar de querer pra si não saber não ter
IV esses cabelos fixos ao crânio ao bel prazer da gravidade refletem um medo por inteiro de queda minha e deles é assim que me mostro ao mundo
cabelos por pentear
V eu quero um piano, quero um papel, vinho, poesia, algo para comer, cozinhar, poucos amigos
cansei de engolir o mundo
VI "Thy hand, belinda, darkness shades me.On thy bosom let me rest.More I would, but death invades me.Death is now a welcome guest.When I am laid in earth, may my wrongs createNo trouble in thy breast.Remember me, but ah! forget my fate." (Dido and Eneas, opera de H. Purcell)
Escrito por Felipe Lesage às 00h17
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não perca seu tempo colhendo essa lágrima que foi só um bocejo
Escrito por Felipe Lesage às 23h11
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Solidão não é
Nem está
Solidão foi
Talvez
aposta no futuro
desprezo por agoras
Foi medo de si
Medo de se
Se fosse assim
Fosse amado
Solidão não está
Foi ali beber
Com colegas de trabalho
Esfolar-se um pouco mais
Acordar em carne viva
Viva, a própria sozinhês de domingo
Nem carro a incomodar ligeiramente
Marteloprego no vizinho
Um nada
Agora,
só lidam passado
Mas sexta feira é logo ali
Logo logo, volta o Sol
E dão dias de
Carne esfolada
Mente apagada
só
E dão mais cinco
Cicatriza
Esfola e dão
Mais outros pingos
Deixa-me a só, então, comigo
Pra experimentar o que é ser
outra coisa que não três
Não profissão, não cor da pele
time político ou partido de futebol
Solidão não foi azar
Fui só
eu em carne viva
Viva, a impressão de que vivi
Só
Até o tempo de chegar,
cruzar a sala
e me sentar
Com minhas marcas
já quelóides companhias
Do esfolatório, social
dia-a-dia
Solidão foi só
Sentar-me e aguardar
Que as dores do reencontro comigo
na volta do qualquer bar
Voltassem a latejar
Escrito por Felipe Lesage às 03h12
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