fragmentos de
fragmentos de
noturnas
I Nunca havia reparado Você possui mãos, infantis, delicadas, maternais agarrando a garrafa de vinho na foto Tampouco notara que ainda canto as mesmas únicas músicas que saíam desses anos de ser em ti exatamente as mesmas. Não penso em novas canções, não há nova canção As mesmas poucas roupas que sobraram, ainda tem esse gosto de noite, que era nosso espaço de ser. Não cabíamos aos dias; são ambos mesma matéria, mas à luz vem de forma trancada, do jeito que funciona, que dói a garganta e prende as lágrimas. Não havia reparado que nosso amor era noite
II - O que acontece? É aquele vazio de novo? - É vontade. - De que? - De ser, existir. Conhecer aquilo que é aquilo que chamam lar, aquilo que chamam SOU, FAÇO, TENHO são todos realmente tão vitoriosos assim? Conheço brilhos no olhar, e vejo que o mundo inteiro, não só eu, está sedento por paixão vítrea, algo que more no futuro um amor que more afastado no tempo, pra que possa continuar movendo carros, escritórios, festas e tanques aglomerados de massa tão desprovidos de gente que gente é ser por inteiro é saber gostar e porque odiar
III que o ódio também é razão além de defesa é um jeito de amar de querer pra si não saber não ter
IV esses cabelos fixos ao crânio ao bel prazer da gravidade refletem um medo por inteiro de queda minha e deles é assim que me mostro ao mundo
cabelos por pentear
V eu quero um piano, quero um papel, vinho, poesia, algo para comer, cozinhar, poucos amigos
cansei de engolir o mundo
VI "Thy hand, belinda, darkness shades me.On thy bosom let me rest.More I would, but death invades me.Death is now a welcome guest.When I am laid in earth, may my wrongs createNo trouble in thy breast.Remember me, but ah! forget my fate." (Dido and Eneas, opera de H. Purcell)
Escrito por Felipe Lesage às 00h17
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