I
Preso a sua bicicleta por não mais confiar em seus pés, membros já tão enraizados, fixos ao solo e à consciência quando caminham, aproveita seu tempo da não escolhida solidão para seguir mais adiante. Passa reto pela porta de casa, guiando-se por vontade e medo; o receio que sempre sentiu ao imaginar o fim de sua rua e a sempre noturna estrada que a ela se ligava fazia alimentar um sóbrio mover de pedais.
Despe-se aos poucos da atmosfera de seu bairro, povoado por gatos nômades, sobrados e árvores bem nascidos, e caminha para a interrogativa escuridão do início da estrada, já sentindo o frio, misto de inverno, noite e planície, penetrar nas mãos ao guidom.
O que encontra em poucos minutos, por belo e misterioso que fosse, chama não de “outro planeta, universo paralelo”, mas de “cena”. Sente-se, talvez pela primeira vez, dentro da onírica gravitação do cinema, a intangível beleza que vem do conhecer partes de um todo, e projetar um todo a seu bel prazer. Disso se encarregava a luz da lua, solista da noite, refletida no asfalto liso e úmido, azulando o enegrecido, vasto descampado com que acabava de se deparar, boquiaberto.
O convite a engolir o túnel noturno que se apresentava era assustador, “quando terminar?” pensava, frustrado. Por diversas vezes ainda conheceria essa sensação: o medo de mergulhar, por saber que não há fim que se apresente; vinha então a imagem de seus poemas em papel griz, partituras, sequer rasgados, envoltos na aura da festa que acabara de deixar, sequer esbaforido ou desesperado, dar nome a essa sensação, tão sua e inominável, chamada à memória apenas em passado, nunca em palavra, de pura que era.
Mas agora a metáfora era clara demais, e seus olhos, lacrimosos face ao vento já rural, tragavam o cenário; não há placa, não há poste, ouve-se um murmúrio de aviões ao longe rasgarem as peles noturnas, insetos em eterno acasalamento, e o convite: fluxo, noite, campos, estampas, lua.
Escrito por Felipe Lesage às 08h48
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