(...)pois bem, desliguei o telefone sem dizer, mas devia tê-lo feito assim que percebi: que não há vazio que exista por si. Vazio, esse sentir a que estamos fadados uns e outros, é por ser sentido, negar completude qualquer que esteja existindo por aí. Acho que tocar esse tal é uma experiência de se saber existência, perceber sua vida além da frágil sensação de completude que as tarefas materiais acabam por nos endereçar. Compra-se flores, compra-se vasos, quebram-se os pratos, fala-se ao telefone, mas isso tudo é matéria. Isso tudo é lindo e vazio enquanto sem suas próprias cores.
Ou é o vazio, então, simples máscara, disfarce do medo. É sim. Isso de se viver e aprender, respirar e aprender, gozar, apanhar, tanger a morte com os dedos e aprender, a isso chamei tempo. E o homem é tempo que não sofre duas vezes mesma dor, ou mesmo homem; cala-se a boca, encolhem-se os ombros, o olhar migra. Do agora ao infinito. E a boca, nascida presente, de cores e fôlegos por gritar, faz-se eco do medo: torna-se vácuo.
E afinal não há homem que conceba o vácuo, o infinito. No entanto sei que o que fica quando alguém morre é um pouco dessas duas palavras: um pouco de fim e um pouco de espera.
Mas o vazio, esse disfarce do medo, fôlego insípido entregue aos pulmões, o vazio é cor que só se pinta em quem já se permitiu mergulhar, tocar de pele inteira, não só ponta do olhar, seus tempos de total presença.
Escrito por Felipe Lesage às 01h34
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