não que seja raridade. não é raro que pessoas me sejam espelho, pelo menos não raro do impossível, que me completem e troquem de uma companhia que nem é mesmo a palavra que a descreve, conhece?
acontece que hoje não. hoje foi um conto de cortazar, sol esturricante, um morango com açúcar úmido, um morango que nem se lançava como idéia, e muito de uma sensação próxima a tristeza tostando junto comigo. chorava ao ler em voz sussurrada “aí, mas onde, como”
“aí, mas onde? como?”
tudo que morre em palavras ou seja que é livre contém essa sensação de presença etérea, de estar aí, mas onde, como?
e parei de chorar, conforme me sabia chorando como palavra
e cortazar me contou um segredo, enquanto eu tentava contar-me outro
que, pasmo, aquilo continha mais morte e liberdade que a noite em claro de sexo com uma estranha da qual me encontrava recém emerso
porque com essa estranha o sexo havia mantido sua palavra
o sol queima, e eu entro em casa, ligando o chuveiro gelado, e com a idéia de escrever coisas que não tenham mais nem começo, nem meio, nem fim, nem muito menos clímax, nem muito menos tensão ou relaxamento. um conto atonal, uma canção sem parágrafos
Escrito por Felipe Lesage às 23h20
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